O drywall ainda gera dúvidas em muitos compradores, mas já faz parte da construção atual e merece uma análise mais criteriosa antes da compra.
Quando um comprador descobre que o apartamento que está avaliando tem paredes de drywall, a reação costuma ser de desconfiança. A palavra soa frágil. A ideia de que a parede é “de gesso” evoca uma leveza que parece incompatível com a solidez esperada de um imóvel. E como poucos compradores já tiveram a oportunidade de entender de verdade o que é esse sistema, as dúvidas ficam sem resposta, e a resistência permanece.
O problema é que boa parte dessa resistência é alimentada por informação incompleta. O drywall que as pessoas imaginam e o drywall que a construção civil moderna efetivamente entrega são coisas diferentes. Entender essa diferença não é uma questão de defender o sistema a qualquer custo, mas de ter critério para avaliar o que um empreendimento realmente oferece.
O que é o sistema drywall?
Drywall é um sistema construtivo de paredes e forros composto por chapas de gesso acartonado fixadas sobre uma estrutura metálica, geralmente perfis de aço galvanizado. Dentro dessa estrutura, dependendo da aplicação, podem ser adicionados materiais de isolamento acústico e térmico, como lã de vidro ou lã de rocha.
A origem do sistema é americana. No início do século XX, a empresa United States Gypsum Company desenvolveu uma chapa de gesso entre camadas de papel com o objetivo de substituir o reboco tradicional, que era lento, caro e dependia de mão de obra especializada. O produto foi patenteado em 1916 e comercializado com o nome de Sackett Board antes de ganhar o nome pelo qual ficou conhecido: Sheetrock.
A grande virada veio durante a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos precisavam construir instalações militares em escala e velocidade sem precedentes, e o drywall provou ser a solução mais eficiente para isso. Depois da guerra, com o boom habitacional americano dos anos 1950, o sistema foi incorporado definitivamente à construção residencial e se tornou o padrão em praticamente todo o território americano. Hoje, quase todas as casas e apartamentos construídos nos Estados Unidos têm paredes internas de drywall.
No Brasil, o sistema chegou com mais força a partir dos anos 1990 e foi ganhando espaço à medida que a construção civil passou a valorizar a racionalização dos processos, a redução de resíduos e a precisão construtiva. A Associação Brasileira de Drywall estima que o Brasil esteja entre os maiores mercados consumidores desse sistema no mundo.
No contexto de apartamentos, o drywall é utilizado principalmente nas paredes internas, as divisórias entre ambientes dentro da mesma unidade ou entre unidades e áreas comuns. As paredes de estrutura (lajes, pilares, vigas) continuam sendo de concreto. O drywall divide e organiza os espaços internos.
Drywall isola som?
Se existe uma preocupação que aparece com frequência quando o assunto é drywall em apartamento, é o isolamento acústico. As pessoas imaginam que uma parede de gesso vai transmitir som com muito mais facilidade do que uma parede de alvenaria, e essa percepção faz sentido intuitivamente, afinal o gesso parece mais leve, mais fino, mais vulnerável ao barulho.
O que essa percepção ignora é que o desempenho acústico de uma parede não depende apenas do material, mas do conjunto: a espessura do sistema, o número de chapas, o preenchimento interno e a forma como os perfis foram montados. Uma parede de drywall bem especificada, com dupla camada de chapas em cada face e lã de vidro no interior, pode atingir isolamento acústico superior ao de muitas paredes de alvenaria convencional.
A NBR 15.575, norma brasileira de desempenho para edificações habitacionais, estabelece requisitos mínimos de isolamento acústico para paredes entre unidades, entre dormitórios e áreas comuns, e entre ambientes internos. Sistemas de drywall projetados para uso residencial são capazes de atender e superar esses requisitos. O ponto decisivo aqui não é o material em si, mas a especificação adotada e a qualidade da execução.
Uma montagem mal feita, com folgas entre chapas, sem o preenchimento adequado, com perfis fora de prumo, compromete o desempenho acústico de qualquer sistema, inclusive de alvenaria. Por isso, ao avaliar um empreendimento com drywall, a pergunta relevante não é apenas “tem drywall?”, mas “qual é a especificação e como foi executado?”
Drywall é frágil? Dá para pendurar objetos?
Outra preocupação frequente é a resistência física do drywall. Como fixar prateleiras, quadros pesados, armários? E o que acontece se alguém bater na parede com mais força?
Sobre a fixação: o drywall aceita fixações desde que se utilize o hardware adequado. Objetos leves como quadros, espelhos pequenos e prateleiras decorativas podem ser fixados diretamente na chapa com buchas próprias para drywall. Para cargas maiores, como televisores, armários ou prateleiras com peso relevante, a fixação deve ser feita nos perfis metálicos da estrutura, que são localizáveis com um detector de montantes. Em projetos mais criteriosos, reforços internos de madeirite ou metalon são previstos nos pontos onde fixações pesadas serão necessárias, como atrás do painel da televisão ou na área de instalação de armários de cozinha.
Sobre a resistência a impactos: chapas de drywall padrão são mais suscetíveis a impactos pontuais do que paredes de concreto, e isso é verdade. Para ambientes que exigem maior resistência, como áreas de circulação intensa ou espaços onde o risco de impacto é maior, existem chapas de alta resistência a impactos que oferecem desempenho significativamente superior. Um empreendimento bem especificado usa a tipologia certa de chapa para cada ambiente.
Pode usar em banheiro, cozinha e lavanderia?
Essa é uma das dúvidas que mais gera receio: como uma parede de gesso se comporta em ambientes molhados?
A resposta está na especificação. Existem chapas de drywall desenvolvidas especificamente para áreas úmidas, identificadas pela sigla RU (resistente à umidade) e pela cor verde que as diferencia visualmente das chapas padrão. Essas chapas têm aditivos que reduzem a absorção de umidade e são projetadas para suportar ambientes como banheiros, cozinhas e lavanderias, desde que o projeto preveja a impermeabilização adequada antes da aplicação do revestimento final.
Em outras palavras, o drywall pode ser usado em áreas molhadas, mas precisa ser o tipo certo, com o tratamento correto. Quando o projeto é feito com atenção a esses detalhes, o sistema funciona bem nesses ambientes. O problema aparece quando chapas padrão são usadas em áreas úmidas por erro de especificação ou economia, e o resultado é ruim independentemente do sistema construtivo adotado.
Segurança em caso de incêndio
O comportamento do drywall em situações de incêndio costuma ser pouco discutido, mas é um dos pontos onde o sistema apresenta desempenho concreto e regulamentado.
Existem chapas de drywall com resistência ao fogo, identificadas pela sigla RF, que são projetadas para retardar a propagação das chamas e manter a integridade da parede por mais tempo em situações de incêndio. A resistência varia conforme a tipologia do sistema: configurações mais simples garantem 30 minutos de resistência ao fogo, enquanto sistemas mais robustos podem chegar a 180 minutos.
Esses valores são verificados por ensaios normatizados e fazem parte dos requisitos da NBR 15.575. Em empreendimentos residenciais, a especificação de sistemas com resistência ao fogo adequada faz parte das exigências de projeto e aprovação. Trata-se de uma obrigação regulatória, não de uma escolha da construtora.
O que o drywall representa em termos de sustentabilidade
Esse é um ângulo que raramente aparece nas conversas sobre o sistema, mas tem relevância crescente à medida que a construção civil passa a considerar o impacto ambiental como parte do critério de qualidade.
O drywall tem algumas características que o colocam em posição favorável nessa análise. As chapas são produzidas em fábrica com controle preciso de quantidade, o que gera menos desperdício de material na obra em comparação com sistemas que dependem de corte e mistura no canteiro. O processo construtivo consome muito menos água do que a alvenaria convencional, que depende de argamassa e chapisco. O transporte de chapas pré-fabricadas também gera menos emissão de CO2 do que o transporte de grandes volumes de tijolos e cimento.
Ao final da vida útil, o gesso das chapas pode ser reciclado, possibilidade que a alvenaria convencional praticamente não oferece. Para empreendimentos que buscam certificações de sustentabilidade ou que assumem compromissos ambientais no projeto, o drywall contribui de forma objetiva para esses indicadores.
O que avaliar antes de comprar um apartamento com drywall
Antes de qualquer coisa, vale deixar de lado o preconceito automático e começar a fazer as perguntas certas. Onde o drywall foi aplicado? Qual a solução usada nas áreas úmidas? Houve preocupação com desempenho acústico? Como funciona a fixação de cargas? Qual o padrão técnico adotado no empreendimento? Vale observar também se a construtora trata o tema com clareza, porque isso revela maturidade na escolha dos sistemas construtivos.
Drywall em apartamento vale a pena quando está bem especificado, bem executado e coerente com o projeto. O material por si só não é garantia de qualidade nem sinal de problema. O que define o resultado é o conjunto: sistema, aplicação, desempenho e responsabilidade construtiva.
Um comprador que chega a essa conversa com mais informação faz perguntas mais úteis, consegue distinguir uma especificação séria de uma superficial e toma uma decisão mais segura.


